Suzano mira contratos longos: o que muda para o mercado de celulose
A Suzano, gigante brasileira do setor de celulose, sinalizou uma mudança estratégica que pode redefinir o mercado: a possível saída do segmento spot de celulose já neste ano. Segundo declarações rec...
RESUMO EM 60S
A Suzano, gigante brasileira do setor de celulose, sinalizou uma mudança estratégica que pode redefinir o mercado: a possível saída do segmento spot de celulose já neste ano. Segundo declarações recentes do presidente da companhia, a empresa avalia priorizar contratos de longo prazo, reduzindo a exposição às oscilações de preços no mercado à vista. A decisão, se concretizada, pode impactar desde a precificação global da commodity até a dinâmica de concorrentes como Klabin e Eldorado. Mas por que agora? E quais os riscos dessa aposta em um cenário de demanda ainda incerta?
Introdução
O mercado de celulose vive um momento de reavaliação estratégica. Enquanto a demanda global dá sinais mistos — com o Ocidente reduzindo o ritmo de compras e a Ásia mantendo apetite —, a Suzano (SUZB3) surpreende ao anunciar que pode deixar de atender o mercado spot em 2026. A declaração do presidente da companhia, feita em entrevista ao InfoMoney nesta semana, joga luz sobre uma tendência pouco discutida: a busca por previsibilidade em um setor historicamente volátil.
Para investidores, a notícia levanta questões cruciais: como essa mudança afetará os preços da celulose? Quais os riscos de depender exclusivamente de contratos longos em um ambiente macroeconômico incerto? E, mais importante, o que isso revela sobre a confiança da Suzano na sustentabilidade da demanda global?
A estratégia por trás da decisão: por que abandonar o *spot*?
A celulose é uma commodity cíclica, sujeita a oscilações bruscas de preços. Nos últimos anos, o mercado spot — onde as transações ocorrem para entrega imediata — tem sido um termômetro da volatilidade. Segundo dados do Fastmarkets, os preços da celulose hardwood (segmento em que a Suzano é líder global) caíram cerca de 20% em 2025, refletindo um excesso de oferta e uma demanda mais fraca do que o esperado na Europa e na América do Norte.
Ao priorizar contratos de longo prazo, a Suzano busca:
- Estabilidade de receitas: Contratos plurianuais permitem previsibilidade de fluxo de caixa, algo valorizado por investidores em um cenário de juros ainda elevados.
- Redução de riscos: O mercado spot é sensível a choques de oferta (como greves em portos ou paralisações de fábricas) e demanda (como recessões em mercados-chave).
- Margens mais defensivas: Em períodos de baixa, contratos longos podem garantir preços acima do spot, protegendo a lucratividade.
No entanto, a estratégia não é isenta de riscos. Ao abrir mão da flexibilidade do spot, a Suzano fica mais exposta a:
- Mudanças estruturais na demanda: Se a transição para economias de baixo carbono reduzir o consumo de papel (substituído por alternativas digitais), contratos longos podem se tornar um passivo.
- Concorrência agressiva: Rivais como a chilena CMPC ou a brasileira Klabin podem aproveitar a lacuna no spot para ganhar market share.
- Rigidez operacional: Em um setor intensivo em capital, a incapacidade de ajustar volumes rapidamente pode ser um problema em crises.
O cenário global: demanda em xeque
A decisão da Suzano ocorre em um momento delicado para o setor. Segundo o FMI, o crescimento global em 2026 deve desacelerar para 2,2% na América Latina, com reflexos na demanda por commodities. No caso da celulose, três fatores merecem atenção:
Ocidente em desaceleração: A Europa, um dos principais mercados para celulose de fibra curta (produzida pela Suzano), enfrenta uma crise industrial. A indústria de papel e embalagens, que responde por 60% do consumo, cresceu apenas 0,5% em 2025, segundo a CEPI (Confederation of European Paper Industries).
Ásia resiliente, mas seletiva: A China, maior consumidora global de celulose, mantém um apetite robusto, mas com uma mudança de perfil: há uma preferência crescente por fibras longas (usadas em tecidos) em detrimento das curtas (usadas em papel). Isso pressiona a Suzano, que é líder em fibra curta.
Transição energética: A celulose é um insumo chave para produtos como embalagens biodegradáveis e biocombustíveis. No entanto, o ritmo de adoção dessas tecnologias ainda é incerto, criando um dilema para produtores: investir em capacidade agora ou esperar por sinais mais claros de demanda?
Impacto nos concorrentes: quem ganha e quem perde?

- Queda do preço da celulose hardwood em 2025*
A possível saída da Suzano do mercado spot pode reconfigurar a dinâmica competitiva. Analistas consultados pelo Valor Econômico apontam três cenários:
Klabin (KLBN11): A maior concorrente brasileira da Suzano pode se beneficiar ao ocupar o espaço deixado no spot. A empresa já vem diversificando sua base de clientes e tem uma estratégia mais agressiva em fibra longa, o que pode atrair compradores que dependiam da Suzano.
Eldorado Brasil: Com uma estrutura enxuta e foco em eficiência operacional, a Eldorado pode aproveitar para ganhar market share em contratos de médio prazo, especialmente no mercado asiático.
CMPC (Chile): A gigante chilena, que já tem uma presença forte no spot, pode ampliar sua participação global. No entanto, a empresa enfrenta desafios logísticos e de custos que podem limitar sua capacidade de absorver toda a demanda.
Para os investidores, o movimento da Suzano levanta uma questão: será que outras produtoras seguirão o mesmo caminho? Se sim, o mercado spot pode se tornar mais volátil, com menos players dispostos a absorver excessos de oferta.
Riscos para a Suzano: a aposta em contratos longos é segura?
A estratégia de priorizar contratos de longo prazo não é nova no setor de commodities. Empresas como a Vale (VALE3) e a Petrobras (PETR4) já adotaram modelos semelhantes em momentos de incerteza. No entanto, o caso da Suzano traz nuances específicas:
Dependência de poucos clientes: Contratos longos geralmente envolvem grandes compradores, como fabricantes de papel e embalagens. Se um desses clientes enfrentar dificuldades financeiras, a Suzano pode ter dificuldade para realocar volumes rapidamente.
Exposição a cláusulas de take-or-pay: Muitos contratos de longo prazo incluem cláusulas que obrigam o comprador a adquirir um volume mínimo, mesmo em períodos de baixa demanda. Isso pode gerar tensões comerciais e até disputas judiciais.
Rigidez de preços: Em um cenário de alta inflação ou desvalorização cambial, contratos com preços fixos podem corroer as margens da Suzano. A empresa precisará negociar cláusulas de reajuste que reflitam a realidade do mercado.
Inovação e substituição: A celulose enfrenta concorrência de materiais alternativos, como plásticos reciclados e fibras sintéticas. Se esses produtos ganharem escala, contratos longos podem se tornar um fardo.
O que dizem os analistas?
As reações do mercado à declaração da Suzano foram mistas. Enquanto alguns analistas veem a estratégia como um movimento inteligente para reduzir volatilidade, outros questionam se a empresa não está subestimando os riscos de uma demanda mais fraca do que o esperado.
Banco BTG Pactual: Em relatório recente, o banco destacou que a Suzano tem uma das estruturas de custos mais competitivas do setor, o que lhe dá margem para priorizar contratos longos. No entanto, alertou para o risco de perda de market share no spot.
XP Investimentos: A corretora ressaltou que a decisão da Suzano pode ser um sinal de confiança na recuperação da demanda global, mas recomendou cautela. "A empresa está apostando em uma normalização do mercado, mas os sinais ainda são contraditórios", afirmou o relatório.
Goldman Sachs: O banco americano manteve sua recomendação de compra para SUZB3, argumentando que a estratégia de contratos longos pode melhorar a visibilidade de receitas e reduzir a volatilidade dos resultados. No entanto, reduziu o preço-alvo da ação em 5%, refletindo os riscos macroeconômicos.
Implicações para investidores: o que observar?
Para quem acompanha SUZB3 ou o setor de celulose, alguns indicadores merecem atenção nos próximos meses:
Volume de contratos assinados: A Suzano deve divulgar, em seus próximos balanços, o percentual de sua produção já comprometido em contratos de longo prazo. Um número acima de 70% pode ser interpretado como um sinal de confiança na estratégia.
Preços no mercado spot: Se os preços da celulose no spot continuarem em queda, isso pode indicar que a demanda não está se recuperando no ritmo esperado. Investidores devem monitorar plataformas como o Fastmarkets para acompanhar essa dinâmica.
Desempenho dos concorrentes: Ações como KLBN11 e a chilena CMPC podem se beneficiar se a Suzano reduzir sua presença no spot. Uma performance superior dessas empresas pode ser um sinal de que o mercado está reavaliando suas apostas.
Indicadores macroeconômicos: Dados de atividade industrial na Europa e na China serão cruciais para avaliar a demanda futura. Na InvestAI, você pode acompanhar esses indicadores em tempo real e cruzar com o desempenho de SUZB3.
Fluxo de caixa livre: Com contratos longos, a Suzano pode ter um fluxo de caixa mais previsível. No entanto, investidores devem observar se a empresa está conseguindo manter suas margens em um cenário de custos elevados.