Déficit fiscal do Brasil lidera América Latina: o que o mercado não está vendo?
O Brasil caminha para registrar o maior déficit fiscal da América Latina em 2026, segundo projeções da Fitch Ratings. Enquanto o Ibovespa atinge máximas históricas e a Selic permanece em 15% ao ano, o...
RESUMO EM 60S
O Brasil caminha para registrar o maior déficit fiscal da América Latina em 2026, segundo projeções da Fitch Ratings. Enquanto o Ibovespa atinge máximas históricas e a Selic permanece em 15% ao ano, o alerta da agência de classificação de risco expõe uma contradição: como um país com juros elevados e mercado em alta pode liderar o ranking negativo de equilíbrio fiscal? A resposta envolve despesas crescentes, receitas voláteis e um cenário externo que pode agravar a pressão sobre a dívida pública. Investidores precisam entender as implicações para ativos locais — desde ações até renda fixa — e os riscos que o mercado pode estar subestimando.
Introdução
Em janeiro de 2026, o Brasil vive um paradoxo. De um lado, o Ibovespa acumula dez máximas históricas no mês, aproximando-se dos 182 mil pontos — o melhor desempenho para o período desde 2020. Do outro, a Fitch Ratings projeta que o país terá o maior déficit fiscal da América Latina neste ano, um título nada invejável que coloca em xeque a sustentabilidade das contas públicas. A combinação de juros elevados (Selic em 15%), inflação ajustada para 3,4% e um câmbio estável em R$5,35 não tem sido suficiente para conter o avanço das despesas. Mas por que o mercado parece ignorar esse descompasso? E quais são os riscos reais para investidores brasileiros?
A resposta não está apenas nos números, mas na discrepância entre as narrativas. Enquanto o Banco Central sinaliza cortes graduais da Selic a partir do segundo semestre, a Fitch alerta para um déficit primário que pode superar 1% do PIB — um patamar que, historicamente, pressiona a dívida bruta e limita o espaço para políticas expansionistas. O cenário sugere que o Brasil está navegando em águas turbulentas, com ventos favoráveis no curto prazo (como o apetite por risco global) mas com tempestades fiscais no horizonte.
O déficit fiscal brasileiro em perspectiva: por que a Fitch está preocupada?
A projeção da Fitch não é um dado isolado. Segundo relatório divulgado pela agência em 29 de janeiro de 2026, o Brasil deve encerrar o ano com um déficit primário superior ao de países como México, Colômbia e Chile, tradicionalmente mais estáveis em termos fiscais. O chefe da Fitch para a América Latina, Shelly Shetty, destacou que o problema não é apenas o tamanho do rombo, mas a trajetória insustentável da dívida pública, que pode ultrapassar 80% do PIB até 2027 se não houver ajustes.
Os fatores por trás do déficit
Crescimento das despesas obrigatórias
- O governo brasileiro tem enfrentado pressão para aumentar gastos com previdência, saúde e programas sociais, especialmente em um ano eleitoral (2026 é ano de eleições municipais).
- A PEC da Transição, aprovada em 2023, ainda reverbera nas contas públicas, com despesas indexadas que crescem acima da inflação.
- Segundo dados do Tesouro Nacional, as despesas com pessoal e encargos sociais subiram 8,5% em termos reais nos últimos 12 meses.
Receitas voláteis e dependentes de commodities
- A arrecadação federal tem sido impulsionada por setores como mineração e agronegócio, mas esses segmentos são sensíveis a oscilações de preços internacionais.
- A queda nos preços do petróleo e do minério de ferro no segundo semestre de 2025 já começou a impactar a receita de royalties e participações especiais.
Juros elevados e custo da dívida
- Com a Selic em 15%, o serviço da dívida pública consome uma fatia crescente do orçamento. Em 2025, os juros nominais representaram 5,5% do PIB, um recorde histórico.
- A Fitch alerta que, mesmo com a expectativa de cortes na Selic, o custo médio da dívida permanecerá elevado, limitando o espaço para investimentos públicos.
Comparação com outros países da América Latina
Enquanto o Brasil projeta um déficit primário de 1,2% do PIB em 2026, países como o México e o Peru devem registrar superávits ou déficits controlados (0,5% e 0,8% do PIB, respectivamente). A Colômbia, que enfrentou uma crise fiscal em 2023, já iniciou um processo de ajuste, com meta de déficit de 1% do PIB para 2026.
A tabela abaixo, baseada em projeções da Fitch e do FMI, ilustra a diferença:
| País | Déficit Primário (2026) | Dívida Bruta (% PIB) | Rating Soberano (Fitch) |
|---|---|---|---|
| Brasil | -1,2% | 78% | BB- |
| México | +0,3% | 50% | BBB- |
| Colômbia | -1,0% | 65% | BB+ |
| Chile | -0,5% | 40% | A- |
| Peru | -0,8% | 35% | BBB |
A disparidade é clara: o Brasil não apenas lidera o ranking negativo de déficit, mas também apresenta a maior dívida bruta em relação ao PIB entre os principais países da região. Para investidores, isso sinaliza um risco maior de downgrade de rating, o que poderia elevar o custo de captação do país e afetar ativos locais.
O mercado está subestimando os riscos fiscais?
Apesar do alerta da Fitch, o Ibovespa segue em trajetória de alta, impulsionado por fatores como:
- Liquidez global: Com os Estados Unidos sinalizando cortes de juros em 2026, investidores buscam mercados emergentes em busca de retornos mais atrativos.
- Setores resilientes: Ações de bancos (como Itaú e Bradesco) e empresas exportadoras (como Vale e Petrobras) têm se beneficiado do cenário de juros altos e câmbio estável.
- Expectativa de cortes na Selic: O mercado precifica uma redução gradual da taxa básica, o que poderia aliviar a pressão sobre o consumo e os investimentos.
No entanto, há sinais de que o otimismo pode estar descolado da realidade fiscal. Alguns pontos merecem atenção:
1. A comunicação do Copom e o risco de frustração
Em sua última reunião, em 29 de janeiro de 2026, o Comitê de Política Monetária (Copom) manteve a Selic em 15% e indicou que os cortes começarão apenas no segundo semestre. A decisão surpreendeu parte do mercado, que esperava um tom mais dovish. O comunicado destacou que a trajetória fiscal é um dos principais riscos para a inflação, um recado claro de que o BC não ignorará o desequilíbrio das contas públicas.
Para investidores, isso significa que:
- A Selic pode cair menos do que o esperado: Se o déficit fiscal continuar pressionando a inflação, o BC poderá adiar ou reduzir o ritmo de cortes.
- O real pode sofrer desvalorização: Um cenário de juros altos por mais tempo e déficit crescente aumenta o risco de fuga de capitais, pressionando o câmbio.
2. O efeito dominó na dívida pública
A combinação de déficit primário elevado e juros altos tem um impacto direto na dívida bruta do governo geral. Segundo projeções do Banco Central, a dívida pode atingir 82% do PIB em 2026, um patamar que limita a capacidade do país de responder a choques econômicos.
Para o investidor, isso se traduz em:
- Maior volatilidade em títulos públicos: Títulos como o Tesouro IPCA+ e o Tesouro Prefixado podem sofrer oscilações mais intensas, especialmente em cenários de aversão ao risco.
- Pressão sobre o spread de crédito: Empresas com dívidas em dólar ou dependentes de financiamento externo podem enfrentar custos mais altos.
3. O que o mercado pode estar ignorando?
Enquanto o foco está nos juros e no Ibovespa, há três riscos menos óbvios que merecem atenção:
- Contingenciamento de gastos: O governo pode ser forçado a cortar investimentos em infraestrutura e programas sociais para cumprir a meta fiscal, o que poderia afetar setores como construção civil e varejo.
- Pressão por aumento de impostos: Em um cenário de receitas fracas, a tentação de elevar tributos (como o Imposto de Renda ou a Cide) pode crescer, impactando o consumo e os lucros das empresas.
- Risco político: Com eleições municipais em outubro, o governo pode adotar medidas populistas para ganhar apoio, agravando o desequilíbrio fiscal.
Como investidores podem se posicionar?
Diante desse cenário, não há uma resposta única, mas algumas estratégias podem ajudar a mitigar riscos:
1. Diversificação é chave
- Renda fixa: Em um cenário de juros altos e volatilidade, títulos pós-fixados (como o Tesouro Selic) e CDBs de bancos sólidos oferecem proteção. Para quem busca retorno real, o Tesouro IPCA+ pode ser uma opção, mas com atenção à duration (prazo).
- Ações: Setores defensivos, como utilities (Energias do Brasil, Copel) e saúde (Hapvida, NotreDame Intermédica), tendem a ser menos sensíveis a oscilações fiscais. Empresas exportadoras (Vale, Suzano) também podem se beneficiar de um real mais fraco.
- Fundos imobiliários (FIIs): Fundos de tijolo (como XPML11 e HGLG11) podem se beneficiar de um cenário de juros em queda gradual, mas é importante analisar a qualidade dos inquilinos e a vacância dos imóveis.
2. Atenção aos indicadores fiscais
Investidores devem monitorar de perto:
- Resultado primário mensal: Divulgado pelo Tesouro Nacional, mostra se o governo está conseguindo controlar as despesas.
- Dívida bruta do governo geral: Publicada pelo Banco Central, indica a trajetória da dívida em relação ao PIB.
- Projeções do mercado para o déficit: Disponíveis no Boletim Focus, revelam as expectativas dos analistas para as contas públicas.
Na plataforma InvestAI, você pode acompanhar esses indicadores em tempo real e compará-los com dados históricos para identificar tendências.
3. Proteção cambial
Com o risco de desvalorização do real, investidores podem considerar:
- Exposição a ativos dolarizados: Fundos cambiais ou ações de empresas com receitas em dólar (como Petrobras e Vale) podem oferecer proteção.
- Contratos futuros de dólar: Para investidores mais sofisticados, o mercado futuro de dólar (DOL) permite hedge contra oscilações cambiais.
4. Cautela com alavancagem
Em um cenário de juros altos e incerteza fiscal, o uso de alavancagem (como empréstimos para investir) pode amplificar perdas. Investidores devem avaliar seu perfil de risco e evitar posições excessivamente expostas a um único ativo ou setor.
Conclusão: o Brasil está em uma encruzilhada fiscal
O alerta da Fitch não é apenas um dado estatístico — é um sinal de alerta para investidores. Enquanto o Ibovespa brilha e a Selic permanece elevada, o déficit fiscal do Brasil em 2026 pode ser o maior da América Latina, um título que carrega riscos significativos para a economia e os mercados.
O cenário atual é marcado por contradições:
- Juros altos deveriam conter a inflação, mas também aumentam o custo da dívida.
- Mercado em alta reflete otimismo, mas pode estar subestimando os riscos fiscais.
- Câmbio estável depende de fluxos de capital, que podem se reverter rapidamente.
Para o investidor, a mensagem é clara: diversificar, monitorar indicadores fiscais e estar preparado para volatilidade. O Brasil tem uma janela de oportunidade para ajustar suas contas, mas o tempo está se esgotando. Enquanto isso, o mercado precifica um cenário otimista — mas a história mostra que, quando se trata de finanças públicas, a realidade costuma ser mais dura do que as expectativas.
Este conteúdo é informativo e não constitui recomendação de investimento. Para análises personalizadas, consulte um profissional certificado.
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Este conteúdo é meramente informativo e educacional, não constituindo recomendação de compra ou venda de ativos. Decisões de investimento devem ser tomadas com base em análise própria ou com auxílio de profissionais certificados.